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"For many years I had been lonely.
Then many people visited.
I’d have been happy if they’d stayed.
You are alone, was what they said."
Attila József, trecho de "And So I've Found My Native Country", 1937
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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
Sexta-feira, 12 de Junho de 2009
adorável sputnik
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Praça da Sé
Praça do Patriarca
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Viaduto Santa Ifigênia
Avenida Juscelino Kubitscheck
Marginal Pinheiros
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Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
cair feito um boeing
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O conto abaixo eu escrevi pra Julia numa viagem que a gente fez
em 2006. Passamos quase um mês entre a Bahia, Alagoas e um lugar chamado Canindé do São Francisco, em Sergipe (onde o rio São Francisco vira o Grande Cânion). Em Alagoas, a gente ia todo dia pra praia e lia (em jogral) O erotismo, do Bataille. Mas sobretudo tínhamos pavor do nada amistoso ventilador de teto do quarto que alugamos no honorável China Hotel, o meia estrela de Canindé.
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Campo em branco
Na rodoviária, ele recusou o táxi, a bagagem era pouca e
a empresa tinha arrumado uma pensão no centro, não deve ser
longe. Sumiu pela rua lateral, de calçamento de pedra e um
barulho distante de gente bebendo e falando, as fileiras de casas
velhas e iguais faziam os telhados subir iguais, por cima de janelas
e sacadas de ferro que se repetiam até o céu, todas iguais.
Em menos de meia hora, uma mesma ladeira voltou de novo e de
novo (a cidade é pequena, confusa). Economizou dinheiro
jantando um misto quente e no escuro do quarto o ventilador
trepida, parece que vai se soltar do teto e cair feito um boeing.
Não muda muito e acontece assim: 1) a visita ao hospital da cidade; 2) a falsa apresentação como familiar; 3) o papo informal com o médico; 4) e se tudo corre bem, uma cópia do histórico de consultas e internações do morto. No caso do avô da Raquel foi fácil, o doutor Benaglia nem sequer fez perguntas. Com indiferença, abriu uma gaveta e entregou os documentos que comprovavam a doença cardíaca omitida pelo velho, tudo carimbado, em duas vias — o doutor Benaglia tinha os dedos tortos. Estendeu a mão, pegou os papéis, agradeceu e antes de sair, tossindo, lembrou da garganta, aproveitou pra falar da garganta, que estava irritada e doendo desde cedo. O médico vasculhou o bolso do jaleco, tirou um bloco desbotado e num garrancho, sem vontade, receitou algo (difícil de ler). Então se despediram. Na rua de novo, tentou não se perder; a casa da Raquel fica na parte antiga, do outro lado. Na passagem estreita, olhou o mapinha, seguiu pelo muro, ouvia gente bebendo, falando, as vozes pareciam perto, ali, depois da igreja.
A Raquel perguntou se ele aceitava um café. Na casa, de dois andares e uma árvore cinza na frente, ela e o avô moravam sozinhos. O avô era maestro, consertava pianos (ou algo assim). Tinha morrido há cerca de um mês. De acordo com o registro 91.937 da seguradora, o velho sofrera uma cirurgia para a retirada de um rim, há três anos. Depois, nada mais. Tinha a saúde perfeita. Mas ela devia saber, pensou, não tocou no assunto porque devia saber do coração do velho; o avô mentiu para a seguradora, ela provavelmente está mentindo também. A Raquel gesticulava com a coluna inclinada: “o lugar do meu vô era naquela cadeira do canto”. Ela era bonita, usava grampos no cabelo fino e foi abrindo a cortina enquanto falava, “estávamos assistindo um filme na tevê, e acho que fui até o quintal ver por que o cachorro não parava de latir, quando voltei, meu avô estava ali, no chão. Daí demoraram pra chegar do hospital e abracei o corpo, as mãos dele. Porque aquilo era meu vô, mas já não era, entende?” Ele apoiou a pasta sobre a mesa, a mão no braço dela: estou aqui pra te ajudar (pela janela, lá fora, um grupo de crianças fazia guerra de água), tossiu e tirou a papelada: vou estar agilizando o processo, o dinheiro deve chegar em um mês, no máximo dois. O que precisava era da assinatura dela, e tossiu: a caneta, disse, e apontou o campo em branco.
*
Vai chover e choveu. Apesar disso o calor seguia forte. Sem
camisa, deitado na cama, ele prestava atenção nas turbulências
do ventilador, nas hélices que trepidavam, afundavam e
pareciam rir (de soluçar). Da sua magreza, provavelmente. Rangiam,
como se fossem despencar, dividindo-o em dois — e nenhum
daqueles seria ele. Quis mais de uma vez avisar o rapaz da
portaria, mas teve preguiça. Estava cansado. A luz pálida dos
primeiros postes se acendeu e pela vidraça um finzinho de sol
pingava no vão antes da noite, sua última na cidade. A chuva foi
passando, passando. Pensou em tomar banho, talvez dar uma volta.
*
Chapéus pontudos, cabeças de ave, de caveira, Neros e Césares,
o bloco do rabanete, um corso de nuvens, de mulheres-fantasma, sereias, princesas e piratas, cameleiros e sufis, uma cortina de garoa morna— a Raquel. Forçou a vista, era ela; o barulho cresceu e a Raquel, ele tentava segui-la entre ombros, por cima de um casaco desbotado; ela surgia borrada, duplicava-se, depois sumia. Acendia, apagava. Não entravam em acordo, a Raquel que— os tambores, aquele amontoado de relâmpagos a carregou. Ele forçou na direção oposta, porque de repente também era empurrado pra dentro e dentro lideravam a correnteza um estandarte prateado e um
homem vestido de touro com chifres de dois andares parecendo um ciclone que aumentava rodopiando, rodopiando, rodopi—
Sentiu um puxão no braço. Tomou um susto e a Raquel riu
(a franja na testa, os olhos escuros de sombra), tentou falar e precisou berrar porque todo um clarão de conexões, batidas, vozes, trombones, mulheres de bigode, homens de saia, os encurralava (confuso e impossível de explicar assim, aqui, desse jeito). Ela disse, tentou dizer, que uma amiga, acho que se chamava Marina, Maria, ou não era nada disso também, estava dando uma festa e que— alguém gritou e ele não entendeu, mas ela falou alguma coisa como ter sido legal conhecer você, que a amiga, a festa, vamos com a gente, e obrigada por tudo, obrigada mesmo. Depois, amanheceu. Ele desceu uma ladeira, e a noite voltava — a competição de vinho ruim na cozinha, a história sobre o homem que convertia leões ao cristianismo, a Raquel dançando, girando, quase que, você tem um cigarro?, quer dizer a, quando eu, isso, discutindo, não dá pra saber, a outra, sem nenhuma razão, descobrindo comigo o telhado, deve ser, ou ela sim, só meu vô que, minha mão no meio das coxas dela, e no fim nós, sim, claro, não tinha ninguém, nada, ninguém.
Desceu uma ladeira, duas, se apressou. Nas calçadas, restavam
os bêbados e no lugar dos piratas e índios, a carcaça de uma poltrona velha jogada no meio da rua. A chuva foi passando, passando. Ele pensou em ligar para casa, não aparecer na empresa. Tomar um banho, talvez dar uma volta. Ou simplesmente ficar assim, deitado no quarto, as mãos por trás da cabeça, olhando pra cima. As hélices trepidam — a competição de vinho ruim, o homem que convertia os leões. A Raquel dançando, girando, descobrindo comigo o telhado. As coxas, o vestido curto. Tudo de contornos imprecisos, girando: um tipo de mancha. Apagada, mortificada, embranque— ele tossiu, e a garganta, o ventilador acabava com ela.
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O conto abaixo eu escrevi pra Julia numa viagem que a gente fez
em 2006. Passamos quase um mês entre a Bahia, Alagoas e um lugar chamado Canindé do São Francisco, em Sergipe (onde o rio São Francisco vira o Grande Cânion). Em Alagoas, a gente ia todo dia pra praia e lia (em jogral) O erotismo, do Bataille. Mas sobretudo tínhamos pavor do nada amistoso ventilador de teto do quarto que alugamos no honorável China Hotel, o meia estrela de Canindé.
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Campo em branco
Na rodoviária, ele recusou o táxi, a bagagem era pouca e
a empresa tinha arrumado uma pensão no centro, não deve ser
longe. Sumiu pela rua lateral, de calçamento de pedra e um
barulho distante de gente bebendo e falando, as fileiras de casas
velhas e iguais faziam os telhados subir iguais, por cima de janelas
e sacadas de ferro que se repetiam até o céu, todas iguais.
Em menos de meia hora, uma mesma ladeira voltou de novo e de
novo (a cidade é pequena, confusa). Economizou dinheiro
jantando um misto quente e no escuro do quarto o ventilador
trepida, parece que vai se soltar do teto e cair feito um boeing.
Não muda muito e acontece assim: 1) a visita ao hospital da cidade; 2) a falsa apresentação como familiar; 3) o papo informal com o médico; 4) e se tudo corre bem, uma cópia do histórico de consultas e internações do morto. No caso do avô da Raquel foi fácil, o doutor Benaglia nem sequer fez perguntas. Com indiferença, abriu uma gaveta e entregou os documentos que comprovavam a doença cardíaca omitida pelo velho, tudo carimbado, em duas vias — o doutor Benaglia tinha os dedos tortos. Estendeu a mão, pegou os papéis, agradeceu e antes de sair, tossindo, lembrou da garganta, aproveitou pra falar da garganta, que estava irritada e doendo desde cedo. O médico vasculhou o bolso do jaleco, tirou um bloco desbotado e num garrancho, sem vontade, receitou algo (difícil de ler). Então se despediram. Na rua de novo, tentou não se perder; a casa da Raquel fica na parte antiga, do outro lado. Na passagem estreita, olhou o mapinha, seguiu pelo muro, ouvia gente bebendo, falando, as vozes pareciam perto, ali, depois da igreja.
A Raquel perguntou se ele aceitava um café. Na casa, de dois andares e uma árvore cinza na frente, ela e o avô moravam sozinhos. O avô era maestro, consertava pianos (ou algo assim). Tinha morrido há cerca de um mês. De acordo com o registro 91.937 da seguradora, o velho sofrera uma cirurgia para a retirada de um rim, há três anos. Depois, nada mais. Tinha a saúde perfeita. Mas ela devia saber, pensou, não tocou no assunto porque devia saber do coração do velho; o avô mentiu para a seguradora, ela provavelmente está mentindo também. A Raquel gesticulava com a coluna inclinada: “o lugar do meu vô era naquela cadeira do canto”. Ela era bonita, usava grampos no cabelo fino e foi abrindo a cortina enquanto falava, “estávamos assistindo um filme na tevê, e acho que fui até o quintal ver por que o cachorro não parava de latir, quando voltei, meu avô estava ali, no chão. Daí demoraram pra chegar do hospital e abracei o corpo, as mãos dele. Porque aquilo era meu vô, mas já não era, entende?” Ele apoiou a pasta sobre a mesa, a mão no braço dela: estou aqui pra te ajudar (pela janela, lá fora, um grupo de crianças fazia guerra de água), tossiu e tirou a papelada: vou estar agilizando o processo, o dinheiro deve chegar em um mês, no máximo dois. O que precisava era da assinatura dela, e tossiu: a caneta, disse, e apontou o campo em branco.
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Vai chover e choveu. Apesar disso o calor seguia forte. Sem
camisa, deitado na cama, ele prestava atenção nas turbulências
do ventilador, nas hélices que trepidavam, afundavam e
pareciam rir (de soluçar). Da sua magreza, provavelmente. Rangiam,
como se fossem despencar, dividindo-o em dois — e nenhum
daqueles seria ele. Quis mais de uma vez avisar o rapaz da
portaria, mas teve preguiça. Estava cansado. A luz pálida dos
primeiros postes se acendeu e pela vidraça um finzinho de sol
pingava no vão antes da noite, sua última na cidade. A chuva foi
passando, passando. Pensou em tomar banho, talvez dar uma volta.
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Chapéus pontudos, cabeças de ave, de caveira, Neros e Césares,
o bloco do rabanete, um corso de nuvens, de mulheres-fantasma, sereias, princesas e piratas, cameleiros e sufis, uma cortina de garoa morna— a Raquel. Forçou a vista, era ela; o barulho cresceu e a Raquel, ele tentava segui-la entre ombros, por cima de um casaco desbotado; ela surgia borrada, duplicava-se, depois sumia. Acendia, apagava. Não entravam em acordo, a Raquel que— os tambores, aquele amontoado de relâmpagos a carregou. Ele forçou na direção oposta, porque de repente também era empurrado pra dentro e dentro lideravam a correnteza um estandarte prateado e um
homem vestido de touro com chifres de dois andares parecendo um ciclone que aumentava rodopiando, rodopiando, rodopi—
Sentiu um puxão no braço. Tomou um susto e a Raquel riu
(a franja na testa, os olhos escuros de sombra), tentou falar e precisou berrar porque todo um clarão de conexões, batidas, vozes, trombones, mulheres de bigode, homens de saia, os encurralava (confuso e impossível de explicar assim, aqui, desse jeito). Ela disse, tentou dizer, que uma amiga, acho que se chamava Marina, Maria, ou não era nada disso também, estava dando uma festa e que— alguém gritou e ele não entendeu, mas ela falou alguma coisa como ter sido legal conhecer você, que a amiga, a festa, vamos com a gente, e obrigada por tudo, obrigada mesmo. Depois, amanheceu. Ele desceu uma ladeira, e a noite voltava — a competição de vinho ruim na cozinha, a história sobre o homem que convertia leões ao cristianismo, a Raquel dançando, girando, quase que, você tem um cigarro?, quer dizer a, quando eu, isso, discutindo, não dá pra saber, a outra, sem nenhuma razão, descobrindo comigo o telhado, deve ser, ou ela sim, só meu vô que, minha mão no meio das coxas dela, e no fim nós, sim, claro, não tinha ninguém, nada, ninguém.
Desceu uma ladeira, duas, se apressou. Nas calçadas, restavam
os bêbados e no lugar dos piratas e índios, a carcaça de uma poltrona velha jogada no meio da rua. A chuva foi passando, passando. Ele pensou em ligar para casa, não aparecer na empresa. Tomar um banho, talvez dar uma volta. Ou simplesmente ficar assim, deitado no quarto, as mãos por trás da cabeça, olhando pra cima. As hélices trepidam — a competição de vinho ruim, o homem que convertia os leões. A Raquel dançando, girando, descobrindo comigo o telhado. As coxas, o vestido curto. Tudo de contornos imprecisos, girando: um tipo de mancha. Apagada, mortificada, embranque— ele tossiu, e a garganta, o ventilador acabava com ela.
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
dia da marmota
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No mês passado, editei um livro do Vila-Matas, Suicídios exemplares, “um livro respeitado até por meus inimigos”, segundo o catalão. Em um dos e-mails trocados por causa de dúvidas de tradução, o autor comenta o efeito Dia da Marmota: "Chris Shaw — há muitos anos o engenheiro de som preferido de Bob Dylan — conta que um dia, no fim de um show, se aproximou de Dylan e, referindo-se à interpretação de 'It’s Alright Ma' que acabara de ouvir, quis saber se alguma vez o músico tinha voltado a tocar a versão original da música. Dylan o olhou e disse: 'Bom, você sabe, um disco não é mais que o registro do que você estava fazendo naquela hora, naquele dia particular. E ninguém gostaria de viver o mesmo dia outra vez, não?' Isso me faz pensar não só na necessidade que sempre tive de modificar tudo o que se apresenta como original, mas também na angústia que sinto quando alguém me fala
sobre um livro que publiquei há muito tempo [Suicídios exemplares é de 1991]. Volta e meia isso acontece quando um romance é
lançado em um outro país e preciso aparecer em público, como
se tivesse acabado de escrevê-lo e, além disso, assinar em
baixo de tudo que foi dito ali, há tanto tempo, no livro. A gente escreve é precisamente pelo motivo contrário, para modificar os originais, para não viver o mesmo dia outras vezes."
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No mês passado, editei um livro do Vila-Matas, Suicídios exemplares, “um livro respeitado até por meus inimigos”, segundo o catalão. Em um dos e-mails trocados por causa de dúvidas de tradução, o autor comenta o efeito Dia da Marmota: "Chris Shaw — há muitos anos o engenheiro de som preferido de Bob Dylan — conta que um dia, no fim de um show, se aproximou de Dylan e, referindo-se à interpretação de 'It’s Alright Ma' que acabara de ouvir, quis saber se alguma vez o músico tinha voltado a tocar a versão original da música. Dylan o olhou e disse: 'Bom, você sabe, um disco não é mais que o registro do que você estava fazendo naquela hora, naquele dia particular. E ninguém gostaria de viver o mesmo dia outra vez, não?' Isso me faz pensar não só na necessidade que sempre tive de modificar tudo o que se apresenta como original, mas também na angústia que sinto quando alguém me fala
sobre um livro que publiquei há muito tempo [Suicídios exemplares é de 1991]. Volta e meia isso acontece quando um romance é
lançado em um outro país e preciso aparecer em público, como
se tivesse acabado de escrevê-lo e, além disso, assinar em
baixo de tudo que foi dito ali, há tanto tempo, no livro. A gente escreve é precisamente pelo motivo contrário, para modificar os originais, para não viver o mesmo dia outras vezes."
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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
deve ter acontecido
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"O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido"
Adilia Lopes, Um jogo bastante perigoso, 1985
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"O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido"
Adilia Lopes, Um jogo bastante perigoso, 1985
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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009
millennium people
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David Lamelas, The violent tapes of 1975 (1975)
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"People don't like themselves today... We tolerate everything, but we know that liberal values are designed to make us passive... We're deeply self-centred but can't cope with the idea of our finite selves. We believe in progress and the power of reason, but are haunted by the darker sides of human nature. We're obsessed with sex, but fear the sexual imagination and have to be protected by huge taboos." (J.G. Ballard, 1930-2009, em Millennium People)
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Jean-Luc Godard, Alphaville, 1965
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Sábado, 18 de Abril de 2009
não se finja de morto, pedale
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Conto que a Vanessa e eu escrevemos juntos, em 2003.
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Vibrafone
Olha, vamos esperar, juntos.
Perde a mão no meu cabelo e ouve o chiado, a vitrola e como se arrastam intermináveis os mistérios às quatro da manhã. Ainda mais quando se trata do sumiço de um vibrafone numa música que não chega nunca. O jeito é esperar, fecha os olhos, pode. Se você dormir, tudo bem, e não se preocupa quanto ao disco: vai estar aí, girando e girando depois mesmo. Ele não acaba, começa sempre de novo e de novo - num tempo infinito, todas as coisas do mundo (um número desmedido embora finito de coisas) alcançam o maior número de permutações possíveis, e se repetem milhares de vezes, como uma canção que nunca acaba ou então que não começa. Nunca.
Ai, o leite no fogo.
Da sala pra cozinha, no trajeto, a imagem da Bessie Smith ainda palpita na cabeça: essa mulher berra muito, deitada, de olhos fechados. O trombone pergunta, uma vez mais, e tem o peso da câmera lenta, faz "Empty Bed Blues" ser uma das mais bonitas do disco. Bessie responde, jogada num quarto sem cantos, perto da mesa do centro, com aquela voz de pato com laranja.
Uma sujeira, o fogão está um nojo, agora o cheiro de leite por toda casa, e o chão gelado. Preciso de meias de lã, grito na direção da sala. Quando escutei "Baby Doll" pela primeira vez, pensei na Bessie repetindo o refrão e olhando pra mim com cara de cachorrinho pidão; então eu desembrulhava um baby doll (de seda, cor-de-rosa) e jogava pra ela. Como se fosse parar de resmungar só porque ganhou um maldito baby doll - eu sei, é estúpido.
Segura a xícara com cuidado, tá quente. Eu sei, é estúpido. Mas penso nisso até hoje: é como aquelas fixações insólitas dos adesivos da bicicleta e da menina do pirulito. Nunca te falei?
Espera, olha: acho que a música do vibrafone está chegando. [...] Hm, não. Mas não deve demorar. Senta direito pra tomar o teu leite, enquanto isso vou te contando: as fixações, aquelas minúcias que grudam na memória durante décadas e décadas.
No circo, quando pequena, eu ficava encarando sempre um
adesivo perto dos trailers, grudado num vidro da janela ao lado
do banheiro feminino, onde estava escrito assim: "Não se finja de morto, pedale". E tinha o desenho de uma bicicleta, embaixo. Por mil demônios: você não sabe o quanto sou obcecada por esse adesivo até hoje. Escuta, será que é agora? Não: é só o trombone que voltou, digo, um frio por dentro.
Também não consigo desgrudar da vez - lá em 1986 - que passei me equilibrando numa faixa azul riscada com tinta no quintal de casa. Penso nisso e, depois, sempre, num trapézio, "Grooving High", canção 7, essa. Não, não é a do vibrafone. Olha, algumas escalas e notas e contratempos rolando e dando de cara com a gata que afia as unhas debaixo da mesa. A gata, gatinha, gatucha. Engole uma frase longa de trompete, engasga e provoca um tsunami no sofá.
Solo de bateria - espera, vamos esperar.
Uma vida que começasse assim, que comece sempre. Que seja toda hora interrompida, pá - e comece de novo. É livre quem não construiu nada. Ou quem jogou tudo fora, pro alto. Repete, repete gatinha, eu não quero as vidas anteriores, eu não quero, eu não.
Agora, a fixação mais desgraçada é a da "menina que chupava pirulito sem camisa". É obsessão pra uma vida toda. Era um grafite que ficava na esquina da Paulista com a Brigadeiro, lado Jardins, colado a uma barraquinha de cachorro-quente. Ora, alguém desenhou uma menina que chupava pirulito sem camisa e escreveu embaixo: "a menina que chupava pirulito sem camisa". Céus. Mas não existe mais, nem o grafite nem a barraquinha. Destruíram tudo.
Acho que é dessas coisas idiotas que a gente mais se lembra -
o que é muito triste, porque seria mil vezes melhor recordar o rosto de alguém importante, ou uma viagem perfeita. Mas não: a gente lembra de um certo dia em que comeu um pudim e depois assistiu tevê, ou do dia em que foi andar de bicicleta na rua e não aconteceu absolutamente nada de especial. Todo mundo se lembra de como, num dia muito claro, puxou a bicicleta pra cima dos degraus, direitinho, e sentiu no rosto aquele sol absurdo.
O jeito é esperar. Porque o vibrafone sumiu pra valer. A gente precisa resolver isso. O nome da música é "Save It Pretty Mama". Li de novo o encarte. Estava lá: Lionel Hampton tateando o ar com o vibrafone em "Save It Pretty Mama". Escutei umas duzentas vezes. Juro, não estou brincando, sumiram com o vibrafone. Não está lá. Logo ele, o vibrafone. E logo o Lionel Hampton, pai do vibrafone - embora criasse também outros filhos, pois se atrevia ao piano. Desenvolveu a técnica de tocar com apenas dois dedos da mão direita; a mesma técnica, aliás patética, que ficaria famosa nos filmes dos Irmãos Marx, e que me influenciou no manuseio da máquina de escrever. Eu não sei quem é o culpado, não sei quem roubou o vibrafone do meu disco, mas tenho lá minhas suspeitas. Foi um homem vestido de palhaço. Pronto, falei. Pode rir - tempo para dar risada e fazer piadas sobre minha terrível situação. [...] Os palhaços me vigiam por toda parte, chegam sempre para me lembrar de que não estou sozinha. Sempre que olho de relance pra trás é como se visse um deles, como se mordessem a minha nuca.
Começou, acho, às vésperas do meu quinto aniversário, quando alguém inventou que eu precisava de uma festa com palhaço. Estava tão bem com o guaraná e as empadinhas, minha mania de apostar corrida, de jogar damas comigo mesma. Não queria um palhaço.
E eu que não fiz nada. Nunca incomodei ninguém. Nunca ameacei as forças cósmicas, o Feng Shui, a astrologia, os Illuminati ou as plantações de aspargos. No mês passado, só para citar um exemplo, estava virando a esquina de uma rua em Florianópolis e dei de cara com um palhaço. Você devia ficar orgulhoso: eu nem gritei, não fiz escândalo nem saí correndo. Se eu morresse naquela hora, e me encontrassem caída no asfalto com os braços em forma de L, estaria impressa nos meus olhos a face risonha do maldito palhaço. Juro, era desses de verdade, que colocam a cara bem no seu nariz e sorriem, com a maquiagem borrada. Lápis no olho. Corri. Corri.
E cheguei aqui, nesta música sem o vibrafone.
Liguei para a distribuidora, e me garantiram: o vibrafone está aí. Insisti, disse que a faixa "Save It Pretty Mama" do meu disco não tinha o maldito vibrafone. Que tinha escutado um milhão de vezes e que não, o vibrafone não existia. Foram categóricos: a gravação, de 1939, era famosa justamente por causa do vibrafone. Fica mais um pouco. Quero te mostrar que o vibrafone, que deveria estar, não está aí. Confia em mim. Eu sei, minhas olheiras. Os dentes, minhas unhas roídas, as capas dos discos, estou com soluços.
Não vai, eu digo, e tento por um segundo imitar um vibrafone. Meio ridícula, no corredor, e o vibrafone que não chega e não me salva.
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Conto que a Vanessa e eu escrevemos juntos, em 2003.
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Vibrafone
Olha, vamos esperar, juntos.
Perde a mão no meu cabelo e ouve o chiado, a vitrola e como se arrastam intermináveis os mistérios às quatro da manhã. Ainda mais quando se trata do sumiço de um vibrafone numa música que não chega nunca. O jeito é esperar, fecha os olhos, pode. Se você dormir, tudo bem, e não se preocupa quanto ao disco: vai estar aí, girando e girando depois mesmo. Ele não acaba, começa sempre de novo e de novo - num tempo infinito, todas as coisas do mundo (um número desmedido embora finito de coisas) alcançam o maior número de permutações possíveis, e se repetem milhares de vezes, como uma canção que nunca acaba ou então que não começa. Nunca.
Ai, o leite no fogo.
Da sala pra cozinha, no trajeto, a imagem da Bessie Smith ainda palpita na cabeça: essa mulher berra muito, deitada, de olhos fechados. O trombone pergunta, uma vez mais, e tem o peso da câmera lenta, faz "Empty Bed Blues" ser uma das mais bonitas do disco. Bessie responde, jogada num quarto sem cantos, perto da mesa do centro, com aquela voz de pato com laranja.
Uma sujeira, o fogão está um nojo, agora o cheiro de leite por toda casa, e o chão gelado. Preciso de meias de lã, grito na direção da sala. Quando escutei "Baby Doll" pela primeira vez, pensei na Bessie repetindo o refrão e olhando pra mim com cara de cachorrinho pidão; então eu desembrulhava um baby doll (de seda, cor-de-rosa) e jogava pra ela. Como se fosse parar de resmungar só porque ganhou um maldito baby doll - eu sei, é estúpido.
Segura a xícara com cuidado, tá quente. Eu sei, é estúpido. Mas penso nisso até hoje: é como aquelas fixações insólitas dos adesivos da bicicleta e da menina do pirulito. Nunca te falei?
Espera, olha: acho que a música do vibrafone está chegando. [...] Hm, não. Mas não deve demorar. Senta direito pra tomar o teu leite, enquanto isso vou te contando: as fixações, aquelas minúcias que grudam na memória durante décadas e décadas.
No circo, quando pequena, eu ficava encarando sempre um
adesivo perto dos trailers, grudado num vidro da janela ao lado
do banheiro feminino, onde estava escrito assim: "Não se finja de morto, pedale". E tinha o desenho de uma bicicleta, embaixo. Por mil demônios: você não sabe o quanto sou obcecada por esse adesivo até hoje. Escuta, será que é agora? Não: é só o trombone que voltou, digo, um frio por dentro.
Também não consigo desgrudar da vez - lá em 1986 - que passei me equilibrando numa faixa azul riscada com tinta no quintal de casa. Penso nisso e, depois, sempre, num trapézio, "Grooving High", canção 7, essa. Não, não é a do vibrafone. Olha, algumas escalas e notas e contratempos rolando e dando de cara com a gata que afia as unhas debaixo da mesa. A gata, gatinha, gatucha. Engole uma frase longa de trompete, engasga e provoca um tsunami no sofá.
Solo de bateria - espera, vamos esperar.
Uma vida que começasse assim, que comece sempre. Que seja toda hora interrompida, pá - e comece de novo. É livre quem não construiu nada. Ou quem jogou tudo fora, pro alto. Repete, repete gatinha, eu não quero as vidas anteriores, eu não quero, eu não.
Agora, a fixação mais desgraçada é a da "menina que chupava pirulito sem camisa". É obsessão pra uma vida toda. Era um grafite que ficava na esquina da Paulista com a Brigadeiro, lado Jardins, colado a uma barraquinha de cachorro-quente. Ora, alguém desenhou uma menina que chupava pirulito sem camisa e escreveu embaixo: "a menina que chupava pirulito sem camisa". Céus. Mas não existe mais, nem o grafite nem a barraquinha. Destruíram tudo.
Acho que é dessas coisas idiotas que a gente mais se lembra -
o que é muito triste, porque seria mil vezes melhor recordar o rosto de alguém importante, ou uma viagem perfeita. Mas não: a gente lembra de um certo dia em que comeu um pudim e depois assistiu tevê, ou do dia em que foi andar de bicicleta na rua e não aconteceu absolutamente nada de especial. Todo mundo se lembra de como, num dia muito claro, puxou a bicicleta pra cima dos degraus, direitinho, e sentiu no rosto aquele sol absurdo.
O jeito é esperar. Porque o vibrafone sumiu pra valer. A gente precisa resolver isso. O nome da música é "Save It Pretty Mama". Li de novo o encarte. Estava lá: Lionel Hampton tateando o ar com o vibrafone em "Save It Pretty Mama". Escutei umas duzentas vezes. Juro, não estou brincando, sumiram com o vibrafone. Não está lá. Logo ele, o vibrafone. E logo o Lionel Hampton, pai do vibrafone - embora criasse também outros filhos, pois se atrevia ao piano. Desenvolveu a técnica de tocar com apenas dois dedos da mão direita; a mesma técnica, aliás patética, que ficaria famosa nos filmes dos Irmãos Marx, e que me influenciou no manuseio da máquina de escrever. Eu não sei quem é o culpado, não sei quem roubou o vibrafone do meu disco, mas tenho lá minhas suspeitas. Foi um homem vestido de palhaço. Pronto, falei. Pode rir - tempo para dar risada e fazer piadas sobre minha terrível situação. [...] Os palhaços me vigiam por toda parte, chegam sempre para me lembrar de que não estou sozinha. Sempre que olho de relance pra trás é como se visse um deles, como se mordessem a minha nuca.
Começou, acho, às vésperas do meu quinto aniversário, quando alguém inventou que eu precisava de uma festa com palhaço. Estava tão bem com o guaraná e as empadinhas, minha mania de apostar corrida, de jogar damas comigo mesma. Não queria um palhaço.
E eu que não fiz nada. Nunca incomodei ninguém. Nunca ameacei as forças cósmicas, o Feng Shui, a astrologia, os Illuminati ou as plantações de aspargos. No mês passado, só para citar um exemplo, estava virando a esquina de uma rua em Florianópolis e dei de cara com um palhaço. Você devia ficar orgulhoso: eu nem gritei, não fiz escândalo nem saí correndo. Se eu morresse naquela hora, e me encontrassem caída no asfalto com os braços em forma de L, estaria impressa nos meus olhos a face risonha do maldito palhaço. Juro, era desses de verdade, que colocam a cara bem no seu nariz e sorriem, com a maquiagem borrada. Lápis no olho. Corri. Corri.
E cheguei aqui, nesta música sem o vibrafone.
Liguei para a distribuidora, e me garantiram: o vibrafone está aí. Insisti, disse que a faixa "Save It Pretty Mama" do meu disco não tinha o maldito vibrafone. Que tinha escutado um milhão de vezes e que não, o vibrafone não existia. Foram categóricos: a gravação, de 1939, era famosa justamente por causa do vibrafone. Fica mais um pouco. Quero te mostrar que o vibrafone, que deveria estar, não está aí. Confia em mim. Eu sei, minhas olheiras. Os dentes, minhas unhas roídas, as capas dos discos, estou com soluços.
Não vai, eu digo, e tento por um segundo imitar um vibrafone. Meio ridícula, no corredor, e o vibrafone que não chega e não me salva.
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Sábado, 21 de Março de 2009
pássaro comanda
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"O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá"
Orides Fontela, o primeiro dos "Sete poemas sobre o pássaro"
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"O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá"
Orides Fontela, o primeiro dos "Sete poemas sobre o pássaro"
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Sábado, 14 de Março de 2009
100 metros rasos responder pesquisas
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Maratona de pesquisas na piauí deste mês.
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Quiz show
Nas ruas de São Paulo, um festival de perguntas espantosas
Na sala picotada por divisórias, no primeiro andar de um
prédio da Rua Sete de Abril, em São Paulo, uma mulher responde que sim, tem o hábito de usar desodorizadores de ar. Embaixo, nas calçadas, homens de terno e homens-placa seguem na lida, sem desconfiar que naquele cubículo está sendo escrito mais um capítulo — modesto mas não por isso desprezível — do capitalismo pátrio: na pequena sala, está em marcha uma pesquisa que definirá o futuro dos rótulos da marca B de desodorizadores de ar.
“A senhora usa o desodorizador uma, duas ou mais vezes por
dia?”, pergunta X, de prancheta na mão. “Só uma vez”, responde a mulher. Registrada a informação, X mostra um frasco do produto, quer saber se ela considera a embalagem jovial. Sim, considera jovial. “É uma embalagem divertida?”, avança X. A interrogada empaca. Inclina o pescoço para um lado, para o outro, tenta avaliar o grau de divertibilidade do arranjo floral estampado no rótulo. Com certo esforço de abstração, concede: “Olha, acho que é divertida sim.” A investigação se aprofunda. A pesquisa quer saber, em uma escala de zero a dez, quão “atraente”, “acolhedora” e “coerente com a marca” é a embalagem do desodorizador. Deve ainda revelar se a mulher: “a) Definitivamente compraria este produto; b) Provavelmente compraria; c) Talvez comprasse; d) Provavelmente não compraria; ou e) Definitivamente não compraria”.
(Opção B é a resposta.)
X, de 40 anos, pesquisador há dez, encerra o trabalho, agradece.
A mulher desocupa a cadeira e, levando a agenda que ganhou de brinde, volta para as ruas.
O centro de São Paulo é o lugar onde mais se pergunta no
Brasil. A quantidade de pontos de interrogação no ar é verdadeiramente prodigiosa. Na Rua 24 de Maio, não longe do QG do desodorizador, graves questões são levantadas a respeito da barra de cereal. O procedimento é o mesmo, o pesquisador intercepta um passante e o convida a subir a uma sala alugada, onde o referido cidadão provará uma barra de cereal para emitir opiniões sobre textura e crocância do produto. O intuito é comparar a barra C com a barra D, a dos concorrentes. Coco é o sabor em questão. Duzentos metros adiante, milita a turma do sabor banana com chocolate.
Y — sendo as pesquisas confidenciais, os pesquisadores preferem manter o nome em sigilo — precisa captar jovens “de 20 a 25 anos classe B”. Na pesquisa das barras de cereal, ganhando 8 reais por questionário respondido, Y faz em média 60 reais por dia. O valor por questionário pode chegar a 15 reais, dependendo do cliente que encomendou a pesquisa. Não é um trabalho fácil. Além de os transeuntes estarem sempre com pressa e sem paciência, certas variáveis demográficas são difíceis de cercar (a turma das barras de cereal precisou de um dia inteiro para conseguir um jovem de 20 anos classe A no centro de São Paulo).
Y tem experiência. Já trabalhou em pesquisas sobre
sabão em pó, tampa de iogurte, cueca e se orgulha de ter entrevistado o empresário Antonio Ermirio de Moraes em um trabalho a respeito de óleos e graxas. “Uma vez”, ela conta, “pesquisei sobre vasos sanitários para saber o que as pessoas achavam da caixa acoplada. Uma mulher quebrou a unha no botão da descarga e eles decidiram repensar o design.”
De acordo com Silvia Almeida, gerente de operações do Ibope Inteligência, que pesquisa consumo, marca e opinião pública, só para entrevistas por telefone a empresa empregou cerca de 300 pessoas entre setembro e dezembro de 2008 — e perguntou-se de tudo, como se não houvesse amanhã: O senhor tem perfil em algum site de relacionamento? Compra produtos em promoção? Em qual marca de sabão em pó a senhora mais confia? O Ibope Mídia, que mede audiência de rádio, jornal, televisão e internet, faz cerca de 1240 entrevistas diariamente, em onze estados. São cerca de 400 mil entrevistas e milhões de perguntas por ano. Segundo Dora Câmara, diretora comercial, 20% das entrevistas são repetidas posteriormente, para identificar distorções e garantir a fidedignidade da informação coletada.
Na calçada da 24 de Maio, Y confidencia que ali perto, no
número 342 da Sete de Abril, cidadãos estariam sendo submetidos a uma bateria de perguntas sobre (misteriosas) “frutas amarelas”. Mais à frente, uma jovem comanda a enquete sobre aparelhos odontológicos. A poucas quadras, na direção da Xavier de Toledo, estão perguntando sobre leite. “Tem gente aqui no Centro que sobrevive de pesquisa”, diz um entrevistador. “Só aceitam responder porque damos o copo de leite.”
Na saída da estação República do metrô, as perguntas são sobre salgadinhos (sabor queijo, presunto e cebola e salsa). De prancheta na mão, uma entrevistadora comenta que não é novata em pesquisa de alimentos. Um de seus trabalhos anteriores era sobre pirulitos. “Eu perguntava em que momento do dia a pessoa costumava chupar pirulito. Não é fácil", suspira. "É preciso técnica.”
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Maratona de pesquisas na piauí deste mês.
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Quiz show
Nas ruas de São Paulo, um festival de perguntas espantosas
Na sala picotada por divisórias, no primeiro andar de um
prédio da Rua Sete de Abril, em São Paulo, uma mulher responde que sim, tem o hábito de usar desodorizadores de ar. Embaixo, nas calçadas, homens de terno e homens-placa seguem na lida, sem desconfiar que naquele cubículo está sendo escrito mais um capítulo — modesto mas não por isso desprezível — do capitalismo pátrio: na pequena sala, está em marcha uma pesquisa que definirá o futuro dos rótulos da marca B de desodorizadores de ar.
“A senhora usa o desodorizador uma, duas ou mais vezes por
dia?”, pergunta X, de prancheta na mão. “Só uma vez”, responde a mulher. Registrada a informação, X mostra um frasco do produto, quer saber se ela considera a embalagem jovial. Sim, considera jovial. “É uma embalagem divertida?”, avança X. A interrogada empaca. Inclina o pescoço para um lado, para o outro, tenta avaliar o grau de divertibilidade do arranjo floral estampado no rótulo. Com certo esforço de abstração, concede: “Olha, acho que é divertida sim.” A investigação se aprofunda. A pesquisa quer saber, em uma escala de zero a dez, quão “atraente”, “acolhedora” e “coerente com a marca” é a embalagem do desodorizador. Deve ainda revelar se a mulher: “a) Definitivamente compraria este produto; b) Provavelmente compraria; c) Talvez comprasse; d) Provavelmente não compraria; ou e) Definitivamente não compraria”.
(Opção B é a resposta.)
X, de 40 anos, pesquisador há dez, encerra o trabalho, agradece.
A mulher desocupa a cadeira e, levando a agenda que ganhou de brinde, volta para as ruas.
O centro de São Paulo é o lugar onde mais se pergunta no
Brasil. A quantidade de pontos de interrogação no ar é verdadeiramente prodigiosa. Na Rua 24 de Maio, não longe do QG do desodorizador, graves questões são levantadas a respeito da barra de cereal. O procedimento é o mesmo, o pesquisador intercepta um passante e o convida a subir a uma sala alugada, onde o referido cidadão provará uma barra de cereal para emitir opiniões sobre textura e crocância do produto. O intuito é comparar a barra C com a barra D, a dos concorrentes. Coco é o sabor em questão. Duzentos metros adiante, milita a turma do sabor banana com chocolate.
Y — sendo as pesquisas confidenciais, os pesquisadores preferem manter o nome em sigilo — precisa captar jovens “de 20 a 25 anos classe B”. Na pesquisa das barras de cereal, ganhando 8 reais por questionário respondido, Y faz em média 60 reais por dia. O valor por questionário pode chegar a 15 reais, dependendo do cliente que encomendou a pesquisa. Não é um trabalho fácil. Além de os transeuntes estarem sempre com pressa e sem paciência, certas variáveis demográficas são difíceis de cercar (a turma das barras de cereal precisou de um dia inteiro para conseguir um jovem de 20 anos classe A no centro de São Paulo).
Y tem experiência. Já trabalhou em pesquisas sobre
sabão em pó, tampa de iogurte, cueca e se orgulha de ter entrevistado o empresário Antonio Ermirio de Moraes em um trabalho a respeito de óleos e graxas. “Uma vez”, ela conta, “pesquisei sobre vasos sanitários para saber o que as pessoas achavam da caixa acoplada. Uma mulher quebrou a unha no botão da descarga e eles decidiram repensar o design.”
De acordo com Silvia Almeida, gerente de operações do Ibope Inteligência, que pesquisa consumo, marca e opinião pública, só para entrevistas por telefone a empresa empregou cerca de 300 pessoas entre setembro e dezembro de 2008 — e perguntou-se de tudo, como se não houvesse amanhã: O senhor tem perfil em algum site de relacionamento? Compra produtos em promoção? Em qual marca de sabão em pó a senhora mais confia? O Ibope Mídia, que mede audiência de rádio, jornal, televisão e internet, faz cerca de 1240 entrevistas diariamente, em onze estados. São cerca de 400 mil entrevistas e milhões de perguntas por ano. Segundo Dora Câmara, diretora comercial, 20% das entrevistas são repetidas posteriormente, para identificar distorções e garantir a fidedignidade da informação coletada.
Na calçada da 24 de Maio, Y confidencia que ali perto, no
número 342 da Sete de Abril, cidadãos estariam sendo submetidos a uma bateria de perguntas sobre (misteriosas) “frutas amarelas”. Mais à frente, uma jovem comanda a enquete sobre aparelhos odontológicos. A poucas quadras, na direção da Xavier de Toledo, estão perguntando sobre leite. “Tem gente aqui no Centro que sobrevive de pesquisa”, diz um entrevistador. “Só aceitam responder porque damos o copo de leite.”
Na saída da estação República do metrô, as perguntas são sobre salgadinhos (sabor queijo, presunto e cebola e salsa). De prancheta na mão, uma entrevistadora comenta que não é novata em pesquisa de alimentos. Um de seus trabalhos anteriores era sobre pirulitos. “Eu perguntava em que momento do dia a pessoa costumava chupar pirulito. Não é fácil", suspira. "É preciso técnica.”
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